Jornalista, historiador e pesquisador colecionou polêmicas com seus textos sobre a música e a cultura brasileiras
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 07/02/2018 17h52, última modificação 07/02/2018 18h13

São Paulo – No início dos anos 1950, o jovem José Ramos, iniciante no mítico Diário Carioca, virou ‘Zé Tinhorão’ por gracejo de um colega e nunca mais deixou de ser Tinhorão, o implacável jornalista e pesquisador, famoso pela acidez no texto e que nesta quarta-feira (7) completa 90 anos. Chegar a essa idade é “obsceno”, segundo ele comentou à também jornalista Elizabeth Lorenzotti, autora de Tinhorão: o legendário (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), biografia lançada em 2010. Colecionou “brigas”, mas construiu uma obra sólida, edificada em três dezenas de livros. “É o mais importante e longevo estudioso da cultura popular brasileira”, diz o pesquisador e amigo Assis Ângelo, que tem encontros semanais, em sua casa, com o agora nonagenário, para horas de prosa.

Outro amigo, o jornalista Janio de Freitas, que em 1958 levou Tinhorão para o Jornal do Brasil, escreveu na contracapa do livro que o pesquisador é alvo de discriminação da academia e, de tabela, da mídia. “Entende-se: historiador com numerosas contribuições originais e desafiadoras, suas pesquisas preciosas e elaborações conceituais resultam em contestações diretas às ideias feitas da historiografia voltada para a música genuinamente popular e a formação social e cultural do Brasil”, analisa.

Se esbarra no mundo acadêmico, ele ao menos foi tema de mestrado. As muitas histórias da MPB – As ideias de José Ramos Tinhorão é o nome da dissertação apresentada em 2008 por Luisa Quarti Lamarão na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo, o mesmo Janio celebra a importância de Tinhorão, que, dedicado à pesquisa histórica, “localizou e desencavou a abandonada Velha Guarda”, a começar por Cartola. “Daí veio uma restauração extraordinária, tanto musical como histórica, reconhecido o samba como expressão também social de um país repleto de discriminação”, escreveu o colunista, dizendo ainda que as críticas nunca fizeram Tinhorão perder o senso de humor. “As birras, idem.”

“Por trás das coisas”

Em depoimento ao Instituto Moreira Salles, que em 2001 adquiriu o seu imenso acervo, Tinhorão contou que primeiro queria ser engraxate, depois jornaleiro, um daqueles meninos que vendiam jornais nas ruas. “Por que jornalista? Desenvolvi muito essa capacidade de imaginar. Uns vão ser inventores, outros abrem a cabeça para receber de forma positiva as informações.” Ele disse ter a capacidade de “se deslumbrar pelo que está por trás das coisas”. A veia pesquisadora se manifestava.

Também para o IMS, explicou, ao seu estilo, como se tornou ateu. Ainda criança, indo para missa, viu um colega sofrendo com uma pedra no sapato, mas que em vez de tirá-la decidiu oferecer o sacrifício a Nossa Senhora. “Eu fiquei numa indignação…”, lembra Tinhorão. “Sendo ateu foi meio caminho para gostar do Marx, depois.”

O acervo de Tinhorão está disponível na página do Instituto Moreira Salles. Em celebração pelo seu aniversário, foi lançada uma série de vídeos em que o autor fala de sua formação e do trabalho.

Nascido em Santos (SP) em 1928, o menino José Ramos foi aos 10 anos para o Rio de Janeiro, onde concluiu, simultaneamente, os cursos de Direito e de Jornalismo. Depois, em São Paulo, faria mestrado em História Social. Passou por diversos veículos (além do Diário e do JB, as revistas Senhor e Veja, e o jornal alternativo O Pasquim), inclusive na TV, como a extinta Excelsior – foi demitido da emissora, sintomaticamente, em 31 de março de 1964. Na véspera, no elevador, sem saber que os três senhores ao seu lado eram coronéis do Exército, reclamou de um “gorilazinho” censurando o noticiário.

Afastando-se aos poucos das redações – ou sendo afastado –, Tinhorão, que havia lançado os primeiros livros em 1966, vai morar em uma quitinete no centro de São Paulo em 1979 (“Um apartamento-cubículo, usando saco de dormir”, descreve Janio de Freitas), viaja a Portugal no ano seguinte para uma pesquisa e mergulha cada mais nos estudos. A partir daquele período, seus livros passam a ser publicados naquele país, para onde ele viaja todos os anos – e se hospeda sempre no mesmo local.

Tinhorão mora hoje no bairro de Campos Elíseos, também na região central de São Paulo, com a mulher, Maria Rosa Vieira. E 12 gatos.

A alcunha de “legendário” surgiu em 1962, quando os fotógrafos do JB passaram a ser estimulados a trazer imagens fora da pauta. Com base em uma delas, Tinhorão fez um pequeno texto, um “texto-legenda”.

Venenoso

Uma brincadeira de redação deu origem ao segundo “sobrenome”: era Zé Ramos, Zé Jardim? Era um “vegetal”, então virou Zé Tinhorão. Uma procura no Google levará primeiro a explicações sobre a planta ornamental – e também tóxica. O Tinhorão escritor aparece depois. Virou quase um sinônimo de cobra, na música Querelas do Brasil, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós:

Tinhorão, urutu, sucuri, olerê

Seria um “troco” de Aldir, depois que o pesquisador criticou seu parceiro João Bosco (“O melhor de João Bosco é Aldir Blanc”, escreveu.)

A biógrafa Elizabeth argumentou que a música não era contra ele, porque fala das coisas boas do Brasil com S, que o Brazil com Z desconhece.

“Sim, mas fala das coisas venenosas também. Embora genuinamente nacionais”, replicou Tinhorão.

Da crítica recorrente à Bossa Nova e suas raízes musicais viria outro “desafeto”, justamente Tom Jobim. Cresceu a lenda de que o maestro cultivava um pé de tinhorão em casa só para lá urinar de vez em quando. A vingança foi elaborada em parceria com o compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho, também irritado com críticas do jornalista. Assim, contou Hermínio, eles declararam que Tinhorão era visto apenas como “uma planta herbácea da família das Aráceas, a quem irrigávamos com nossa urina”.

Na Vila Buarque, perto de onde ele se refugia, Tinhorão será homenageado com uma roda de samba, no próximo sábado (10) à tarde. Já é um encontro tradicional de amigos, no mesmo bar, para festejar os aniversários do escritor. Um dia antes, ele participa de bate-papo com Assis Ângelo e Elizabeth Lorenzotti na ONG Ação Educativa.

 

Algumas obras de Tinhorão:

Música popular – um tema em debate (1966)

O samba agora vai: a farsa da música popular no exterior (1969, relançado em 2015)

Música popular, teatro e cinema (1972)

Pequena história da música popular: da modinha à canção de protesto (1974)

História social da música popular brasileira (1990)

A música popular no romance brasileiro (duas partes, 1992 e 2000)

As origens da canção urbana (1997)

Cultura popular – temas e questões (2001)

Pequena história da música popular – segundo seus gêneros (2013)

Música e cultura popular (2017)

 

Leia mais: 

Tinhorão, o legendário

http://www.redebrasilatual.com.br/entretenimento/2018/02/com-muito-trabalho-e-alguma-birra-tinhorao-chega-aos-90-anos